Em sua 17ª edição, evento promove a mobilização social para comemorar avanços na despoluição do ribeirão Onça
O bairro Ribeiro de Abreu, em Belo Horizonte, foi palco de mais uma edição do “Deixem o Onça Beber Água Limpa”, que chegou à sua 17ª edição reunindo cerca de 300 pessoas em uma programação com arte, educação, mobilização e esperança. Promovido pelo Conselho Comunitário Unidos pelo Ribeiro de Abreu (COMUPRA), com apoio da Copasa e de outras instituições, o encontro reforçou a luta por justiça ambiental e pela revitalização do Ribeirão Onça.
Realizado no sábado (14/06), o tema deste ano “Nossa Meta: Nadar, Pescar e Brincar no Ribeirão Onça”, provocou a comunidade a refletir sobre suas ações em prol da qualidade das águas e da recuperação do ribeirão. A proposta foi provocar engajamento local, sem abrir mão da dimensão afetiva, cultural e comunitária do território, a partir de três perguntas diretas: “O que fiz?”, “O que faço?” e “O que farei para nossa meta acontecer?”.
Parceira do evento, a Copasa marcou presença ao longo de toda a programação, com ações voltadas à conscientização ambiental e ao diálogo com a população. O técnico da Macrooperação de Esgoto, Fernando Oliveira Silva, apresentou ao público as principais ações e investimentos da Companhia na bacia do Ribeirão Onça.
A Copasa também disponibilizou água potável por meio do Pipinha – veículo bebedouro adaptado para grandes eventos, e distribuiu kits educativos aos participantes. Os kits incluíram lixocar, revistinhas Coquetel Passatempo com conteúdos lúdicos sobre os programas de Educação Ambiental da Companhia, como o Pró-Mananciais e o Reviva Pampulha, além de informativos sobre o tratamento de esgoto. 
Nesta edição, o evento foi realizado na sede do COMUPRA, um casarão histórico do século XIX cedido pela Copasa em 2016, que hoje funciona como espaço para debates e atividades culturais. A analista socioambiental da Copasa, Maria Cristina Canuto, ressaltou que, além das obras estruturais na rede de esgoto, é essencial sensibilizar os moradores a conectarem seus imóveis à rede da Copasa. Para ela, a transformação ambiental só acontece com participação popular. “As pessoas precisam conhecer os investimentos feitos na bacia do Onça, mas também entender que elas são parte fundamental desse processo. A gente quer ver o ribeirão limpo, onde se possa nadar, pescar e brincar”, afirmou. Segundo ela, a parceria com o COMUPRA fortalece esse diálogo e permite à Companhia mostrar resultados concretos para a comunidade, como os avanços na retirada de esgoto e as ações de educação ambiental. 
Durante a manhã, a programação do evento foi voltada a rodas de conversa com representantes da prefeitura, universidades, moradores e apresentações de alunos de escolas locais. À tarde, o evento se transformou em uma grande celebração cultural, com apresentações musicais, oficinas e exibição de documentário. Teve fila para prestigiar o tradicional feijão tropeiro preparado por Dona Helena, figura simbólica do movimento desde os primeiros encontros.
Um dos momentos mais emocionantes foi a exibição de trechos do documentário “Arrancada das Raízes”, do jovem designer João Victor Fagundes, de 22 anos, que retrata histórias de moradores afetados por processos de desapropriação em regiões vulneráveis de Belo Horizonte. “Essas pessoas enfrentaram um sentimento muito forte de perda. Ao mesmo tempo, havia o entendimento de que sair dali era necessário, porque a cada ano, com as enchentes, móveis e vidas eram perdidos”, comentou João Victor.
Para ele, mostrar essa realidade por meio da arte é uma forma de criar empatia e reconectar a cidade com o território esquecido do Baixo Onça. “A maioria das pessoas que moram em outras regiões de Belo Horizonte nem imagina que tão perto existem comunidades com cachoeiras, um ecossistema riquíssimo, e também tantos desafios sociais. Mostrar isso por meio da arte cria empatia e fortalece o sentimento de pertencimento – tanto para quem vive aqui, quanto para quem está de fora”, ressaltou.

Clique aqui e assista o documentário ARRANCADOS DAS RAÍZES – VIVÊNCIAS DE UM TERRITÓRIO VULNERÁVEL (2025)
O evento também celebrou resultados concretos. Um dos mais relevantes é a implantação do Parque Ciliar Comunitário do Ribeirão Onça, com 5,5 km de extensão e previsão de áreas de lazer,
pistas de skate, recuperação ambiental e requalificação urbana. A Copasa seguirá contribuindo com a instalação de interceptores e, principalmente, a mobilização social para adesão dos clientes à rede de esgoto da empresa.
A coordenadora do Festival da Onça, Letícia Ribeiro, compartilhou a experiência com essa iniciativa da Escola de Arquitetura da UFMG, que integra o movimento “Deixem o Onça Beber Água Limpa”. Letícia explicou o festival, que é realizado com mutirões coletivos, transforma áreas degradadas às margens do ribeirão em espaços de lazer e cultura, com participação de estudantes, moradores e artistas locais. “Em 2024, três espaços foram revitalizados, e em 2025 o foco será o Mirante da Cachoeira, onde está a maior queda d’água urbana do país”, contou. Para a coordenadora, o festival é mais do que um evento é um movimento de transformação ambiental, justiça social e valorização do território.
Outro exemplo de transformação pelo território vem do Programa Escola Integrada. A coordenadora do Programa, Sônia do Santos França, destacou a proposta de transformar Belo Horizonte em uma grande sala de aula, por meio de oficinas culturais no contraturno escolar. Na escola onde atua, estudantes do 5º ao 9º ano e da EJA participam de atividades como capoeira, artesanato, percussão, informática e educação digital. “Com foco no reforço pedagógico e na vivência comunitária, o projeto valoriza o território como espaço de aprendizagem. Aprender brincando é coisa séria”, afirma Sônia.

A música também esteve presente com o Grupo Bandalho. Com canções poéticas e engajadas, os músicos empolgaram o público em uma grande ciranda. Os integrantes Rodrigo Narciso e Juliana Minardi destacaram a importância de manter encontros como esse, mesmo quando os objetivos forem alcançados: “Esse evento tem que continuar, mesmo que o ribeirão esteja limpo. Porque ele é um espaço de troca, de arte e de saúde, para a natureza e para a gente”, disse Rodrigo.
Juliana ressaltou o valor curativo do convívio com áreas verdes e da reconexão com a água como símbolo de vida. “É restaurativo. Nos ajuda a fluir nas relações, nas emoções. É um movimento de consciência e pertencimento”, concluiu.

O movimento da água
“Eu gosto do movimento da água. E o movimento da água é isso: ele desce, mas ele não desce sem antes provocar alguma coisa. E eu acho que a gente tem que aprender com isso. O movimento da água é bonito, é uma inspiração.”
Com essa visão poética, Itamar de Paula Santos, idealizador do movimento “Deixem o Onça Beber Água Limpa”, sintetiza a filosofia por trás da mobilização: inspirar transformações a partir da escuta da natureza. O movimento nasceu dentro do COMUPRA, em meio às discussões sobre justiça ambiental. Itamar percebeu que era necessário dar rosto, nome e afeto à luta pela preservação do Ribeirão Onça.

Segundo Itamar, o COMUPRA nasceu em 2001 como um conselho deliberativo que pensa a cidade e o meio ambiente de forma ampla. “Já o movimento “Deixem o Onça Beber Água Limpa” surgiu em 2007, com o propósito de garantir justiça ambiental e dar visibilidade a um território esquecido, promovendo cuidado com o rio e com quem vive próximo a ele”, relatou.
Mais do que um evento anual, o “Deixem o Onça Beber Água Limpa” se consolida como um movimento contínuo de regeneração ecológica, memória, educação e esperança. Porque, como lembra Itamar, “o movimento da água não passa sem provocar alguma coisa e a cidade está, enfim, escutando”.















